11 de maio de 2011

Que viva o negro!

É fato sabido que, no ano de 1888, a Princesa Regente Isabel assinou a lei que acabaria com cerca de três séculos de escravidão no Brasil. Entretanto, o que fica subentendido deste episódio é o tratamento dado àqueles que, de repente libertos e independentes, precisaram tomar conta de suas próprias vidas e que estavam longe de brigar em pé de igualdade com a massa trabalhadora branca e de alforriados, que já disputava um mercado até então embrionário. Assinou-se a lei e se impediu a escravidão, mas quanto às condições oferecidas aos negros, pouco esforço foi despendido. A elite produtora precisava de mercado consumidor e acabou por apoiar a decisão da Corte, manchando o caráter libertário do movimento abolicionista de Joaquim Nabuco.

Agora, às vésperas do 13 de maio e da comemoração dos 123 anos da abolição da escravatura em solo tupiniquim, há de se questionar como vive o negro, quais são seus algozes em pleno século XXI, o que corrompe sua dignidade e com quais artifícios ele combate o preconceito. Para que as respostas não omitam a verdade, além de dados estatísticos auferidos pelos grandes institutos e ONGs, é necessário permitir que a subjetividade entre no debate e, respaldada pela razão, assuma um papel importante. Afinal, não é apenas contra os baixos salários que os negros levantam a voz, mas principalmente, contra o preconceito que corrói.

15 de abril de 2011

Palavras sob pressão

Texto publicado na edição 70 do Contraponto, jornal laboratório do curso de Jornalismo da Faculdade de Filosofia, Comunicação, Letras e Artes da PUC-SP.

* Por Ana Beatriz Camargo e Isabel Harari


Yoani Sánchez, a blogueira cubana
autora do Generación Y
(Foto: Estela Caparelli)



“Exercício pessoal de covardia” é como ela define seu blog; “elétron livre”, a si mesma; e “expulsar seus demônios”, sua atividade. Assim é Yoani Sánchez, blogueira cubana que com seus textos pugnazes sobre a realidade de Cuba se tornou uma das personalidades mais influentes da blogosfera. Seu blog, Generación Y, é traduzido por colaboradores para mais de 20 idiomas e suas postagens batem recordes de mais de quatro mil comentários. Ele foi criado em 2007 para dizer na rede tudo aquilo que ela não se atrevia a expressar na vida real, como o descontentamento com a postura dos irmãos Castro e o desencanto em razão da asfixia econômica e da falta de liberdade política.

13 de março de 2011

“Eu falo ‘Vamo?’ e ela, ‘Vamo!’ ”

Texto publicado na edição 69 do Contraponto, jornal laboratório do curso de Jornalismo da Faculdade de Filosofia, Comunicação, Letras e Artes da PUC-SP.


Jorge e Patrícia, donos do Beleza Natural,
sinônimos do empreendedorismo emergente
brasileiro (Foto: Guilherme Amorim)
Agora, eles têm carro, GPS, aparelho de DVD, celular, conseguem cumprir com o aluguel do apartamento, estão a caminho da universidade e, o melhor de tudo, são donos do próprio negócio. Essa é a vida do casal Bispo. Jorge e Patrícia, juntos há oito anos, hoje são figuras certas em congressos de economia que discutem o mercado emergente brasileiro. Jorge e Patrícia são os exemplos do novo empreendedorismo, que pretere o valor e opta pelo volume, que não tem receio de inovar e cria tendências, que olha para a periferia com bons olhos e que sabe onde está pisando. Essa é a classe C.

Ó abre alas que eu quero passar!

A comissão de frente já pediu passagem, a bateria já soou, Arlequim, Pierrô e Colombina foram devidamente relembrados, e a Quarta de Cinzas já passou varrendo a sujeira, acalmando os ânimos, colocando no eixo. Escreveu Marcelo Camelo, cantou Maria Rita e eu insisto: "Todo carnaval tem seu fim. É o fim". É o fim? Do fim? Do ano passado. Raiou 2011.

O Declarando pede passagem, levanta, sacode a poeira e convida todos os seus leitores a dar a volta por cima. Avante!

 
 
"O que você vai fazer pro ano novo ir muito além dos fogos que se lança?" (Guilherme Arantes)

26 de novembro de 2010

Eu não sei de onde vem o tiro...

O dia em que o Rio sangrou. O dia no qual todos os brasileiros foram um pouco cariocas e em uníssono pediram paz. O dia em que muitos não quiseram acreditar nas cenas que viam pela televisão. O dia em que todos se sentiram mais fracos, mais vazios, dilacerados. Um dia para ficar em silêncio e deixar que o barulho fosse apenas aquele vindo da televisão e do rádio. Um dia para ser sempre lembrado, mas que deseja, unicamente, ser apagado da memória. Um dia em que o bem não venceu totalmente o mal, e este, com seus fuzis, andou, em linha reta, sob os olhos de todos nós através das câmeras de televisão. O dia em que o Rio chorou.

22 de novembro de 2010

F de...

* Texto publicado no blog PUCf5

Não há quem, um dia, não se tenha encontrado frente à tão famigerada questão. Seja em uma conversa no trabalho, no bar com amigos de amigos, em rodas típicas de aniversário de tia solteirona, no começo sofrido de uma terapia. O inquirimento é tão certeiro quanto mísseis de trajetória programada, e o resultado – destruidor, por que não? – tão imprevisível quanto. A ousadia é tamanha que a alegria é preterida pelo estado supremo de felicidade, é sempre dela que se pergunta, é sobre ela que interessa saber. E, então, surge a pergunta; ela sai como um impulso, por vezes acompanhada de um pedido de desculpa ou uma explicação qualquer. “Você é feliz?”

Você, é feliz? Pergunta que eleva do chão, que varre a memória sentimental de toda uma vida, emociona, tira o ar, acelera o batimento cardíaco. E, depois de um quase transe pelos corredores das sensações mais íntimas, vem o suspiro; somos devolvidos ao chão, desanimados, desapontados. É o que “A Suprema Felicidade”, novo filme de Arnaldo Jabor, faz conosco. Damos um pulo e... Caímos. De cara. Sem sutilezas. Sem supremacia. Sem felicidade.

Não são as personagens em si, não é o espaço e nem o tempo. Atores a contento interpretam tipos cotidianos, em uma cidade que, como definiu o próprio Jabor, é personagem – o Rio de Janeiro. O tempo é coisa relativa, traz o tom de anos pós-guerra, o ritmo de uma cidade que se rende ao deleite da musicalidade, da tropicalidade, da bebida, da lascívia; é o bucolismo e a melancolia em suas formas mais bem acabadas. O descompasso está nas lacunas deixadas pelo filme. Ao longo desse, fatos da infância e mocidade do diretor se coadunam em um mosaico curioso, sim, mas que parece encerrar-se em si mesmo.

Se há uma promessa temporária de felicidade, como expôs Luiz Zanin Oricchio*, frustramo-nos por ela não ser capaz de nos envolver. O motivo é a esparrela do narcisismo, do gozo solitário, que fascina a ti mesmo, mas não aos seus pares. Identificar-se com os dramas do filme, por mais ordinários que sejam, fato essencial para que esse te cative e encante, exige esforço. Há de se deter nos mínimos detalhes desta teia de sensações para poder costurá-la à sua própria. Por fim, talvez seja este exercício de reflexão o melhor que “A Suprema Felicidade” pode nos dar, logo, não se decepcione caso o contentamento não te atinja de chofre. Não se decepcione caso não saiba responder se a felicidade é sua companheira, sua amante. Supremacias são ilusões. A felicidade, talvez, também seja.


* ”A armadilha da cápsula narcísica do memorialismo”, Luiz Zanin Oricchio. O Estado de S. Paulo, 29/10/2010

Leia também: "Nada é só bom", de Eliane Brum


16 de outubro de 2010

É pau, é pedra – é o fim do caminho

Somos 135,9 milhões de brasileiros aptos a votar nesta eleição, 2/3 da população brasileira que no próximo dia 31 decidirão qual cor tingirá nossa estrela pelos próximos 1.460 dias, qual será o ritmo de nosso brado retumbante e o tom de nossa pátria mãe gentil. Desses brasileiros, 52% são mulheres, o que sugeriria, a priori, que o resultado poderia sofrer algum tipo de interferência sexista. Não sofreu. Ganharam as brasileiras, ganhou o país. Se a legitimidade do pleito está assegurada pela participação ampla do povo brasileiro, em contrapartida, sua ética e integridade não estão. E há quem discorde?

Desconhecido por boa parte do eleitorado, já que 54% desse não concluíram o primeiro grau, Winston Churchill reparou algo importante no Reino Unido de seus anos belicosos: em suas próprias palavras, quando a controvérsia política se torna excitante, as pessoas com temperamento colérico e limitada inteligência se transformam facilmente em pessoas ordinárias. Qualquer semelhança com o que vemos hoje não é mera coincidência. Se não estamos frente a um espetáculo no qual o ordinário virou trivial, ao menos podemos dizer que estão brincando com nossa inteligência, gastando nossa paciência, abusando de nossa disposição.

12 de outubro de 2010

We are the world, we are the children

Nunca aceitei a ideia de nossos pais serem crianças, assim como nós, por isso posso dizer que em pelo menos um ponto discordo do coautor de “Pais e Filhos”. Penso que essa é uma forma muito fácil e pouco racional de tentar livrar as pessoas grandes de suas responsabilidades e jogá-las – para onde? – para o destino, o acaso ou o que quer que seja. Logo elas que tanto falam da tal responsabilidade, que tanto a conjugam como nosso salvo-conduto para uma vida adulta. Para Drummond, é tudo uma questão de comprometimento, assim uma criança nada mais é que um adulto não comprometido. Certo? Errado? Simples demais? Eu fico com esse ponto de vista.

Eu, logo eu, a filhinha do papai, a querida da titia, a neta mais neta, a sombra da mãe, a criança da família, mas que há alguns dias já não é mais, oficialmente, criança. Talvez, assim já não seja há certo tempo, afinal, comprometeu-se. Com seu futuro, com seu nome, sua história, suas circunstâncias, sua carreira, com o que já construíra, com o que lhe dá orgulho. (Obrigada, Drummond!) Comprometeu-se e, na maior parte do tempo, não se arrepende de assim ter sido. Perdeu. Ganhou. Surpreendeu a si mesma.

1 de outubro de 2010

Crônica de uma contagem regressiva

Em um quarto não muito grande, no qual apenas duas camas, algo como um armário e uma mesa de cabeceira compartilhada pelos dois senhores que ali passam boa parte de seu tempo, é impossível não perceber logo que há algo de diferente, de peculiar e – por que não? – impressionante. Seu Oswaldo é um dos ocupantes daquele simplório quarto, morador de uma das tantas casas de repouso que existem hoje. Até este ponto, Seu Oswaldo é apenas parte de um todo – muito especial, claro – mas que ainda assim é um coletivo. Onde estaria, então, aquele quê de “diferente”?

Basta aproximar-se e começar a conversar com aquele senhor de semblante sereno, mechas brancas parcas, ouvidos cansados cansados... Mas olhos sempre arregalados, força para se sentar, comer sozinho e sair andando por aí. Seu Oswaldo é a história em forma de pessoa. Ele foi fuzileiro naval – por obrigação, mas foi. Viajou pelo litoral brasileiro atrás de aventura, ou como ele mesmo diz, porque não tinha compromisso com ninguém; se encantou com as praias, com o calor, com a Cidade Maravilhosa. Seu Oswaldo se casou, teve duas filhas. É fã das músicas do Adoniran, que fazem seus olhos brilhar. Seu Oswaldo é cidadão paulistano; é torcedor fiel do São Paulo. Seu Oswaldo é centenário!

8 de setembro de 2010

Agora é a vez da classe C

Texto escrito para a seção "Economia em foco" do blog PUCf5.



Não é de hoje que uma nova classe social composta por nada menos que 95 milhões de pessoas – metade da população brasileira – é alvo de estudos e pesquisas, principalmente aquelas interessadas em descobrir o que pensam esses consumidores em potencial, certo? Certíssimo. Depois de ajudar o Brasil a atravessar a maré brava da crise global com uma embarcação que, apesar de arranhões e algumas fendas adquiridas, chegou bem ao porto, a classe C, hoje tida como a “nova classe média”, começou a ter seus hábitos investigados e se chegou à conclusão que essa parcela enorme de brasileiros já não consome como antes. Consome mais, muito mais.

A ascensão social à custa do aumento da renda familiar, hoje entre R$1.530 e R$5.100, fez desses brasileiros figura-chave para o aquecimento do mercado interno. E se são tão importantes assim como consumidores, não o serão como eleitores? Foi essa pergunta o pontapé inicial da nova série de reportagens da jornalista Ana Paula Padrão, “A nova classe média”, que vai ao ar durante toda esta semana no Jornal da Record. “Decidi tentar entender como essas pessoas se comportam, quem são, como pensam, e que Brasil querem para eles”, explica a jornalista. Segundo ela, a partir do momento em que entraram para a sociedade de consumo, ganharam cidadania e descobriram que são importantes, sim.

31 de agosto de 2010

BlogDay 2.010

Blog Day 2010


31 de agosto, terça-feira: dia dos aldeões globais blogueiros dedicarem seus caracteres a tributos para seus pares. O motivo para tal é o BlogDay, que comemorando a pluralidade e a troca de informações, chega neste ano à sua quinta edição promovendo indicações e mais indicações nos milhares de espaços virtuais dos "bloggers" ao redor do globo.

O Declarando entra nessa onda após ser carinhosamente indicado pelo jornalista e blogueiro Antenor Thomé, o Antena, em seu Mural do Antena e, portanto, incumbido da função de listar cinco blogs que gostaria de compartilhar com os leitores - declarantes no nosso caso - declara:

15 de agosto de 2010

Declarando sobre economia

Aos novos declarantes, bem como àqueles de longa data, temos um novo endereço para nos encontrar: o blog PUCf5 que é atualizado semanalmente pelos alunos de Jornalismo matutino (2º semestre) da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. A partir de agora, declararei semanalmente sobre um tema que costuma levar às mais horrendas caretas, economia. Por isso, levo para essa missão a vontade insaciável de lançar luz sobre esse "buraco negro" e tornar conceitos, episódios marcantes, e tudo mais que estiver sob essa capa negra da dúvida, algo palatável e inteligível.

primeiro texto já está no ar e todos os próximos serão indicados aqui no Declarando ("Declarei também em..." box à direita). Para me encontrar no blog basta digitar "Economia em foco" na barra de pesquisa e os posts estarão à espera das declarações de vocês. Que possamos estar juntos em mais esta jornada.

Sejam todos muito bem-vindos! 

18 de junho de 2010

Palavra

Um minuto de silêncio. Sessenta segundos frente a 87 anos que, nem de longe, remetem-nos a uma vida silente. De repente, em um entreabrir dos olhos, foi o tal silêncio o que restou de sua onipresença. Muito além de discorrer sobre o homem, O Mestre debruçava-se puramente sobre a palavra; era ela, de fato, a protagonista de suas histórias. É pensar nele para que a importância e o trato com a palavra sejam, imediatamente, retomados. Mais do que nunca, precisamos dessa retomada.

Em uma época em que reticências viraram moda, abdicando-se da prolixidade de vírgulas, pontos e vírgulas e interrogações, não é de causar espanto que a palavra em 140 caracteres seja a imposição, a mais nova ditadura; não é de causar arrepios que as palavras inspirem desconfiança, ironia e – por que não? – medo. Nunca estivemos tanto no tão raso, quando é a profundidade e o seu “por descobrir” que excitam, seduzem e viciam.

3 de junho de 2010

FUNcouver

Ao caro leitor, a explicação: texto publicado na edição 64 do jornal laboratório do curso de Jornalismo da Faculdade de Filosofia, Comunicação, Letras e Artes da PUC-SP, Contraponto.


Enquanto a maioria das emissoras de TV brasileiras preparava-se para cobrir mais um show de peles descobertas, rostos exuberantes e sorrisos saltados à vista – nosso bom e velho lugar-comum – uma emissora em especial abastecia-se de casacos, luvas e botas para alçar novos horizontes, apresentando a nós brasileiros um show de exuberância e sorrisos onipresentes. Preteriu-se o espetáculo da beleza individual de corpos esculturais; preferiu-se a beleza das paisagens limpas ressaltada pelo brilhantismo de super-humanos.

11 de maio de 2010

Hobbes por Fidel - a cartilha de um ditador

Alcançar a paz e evitar injustiças, esses são os nobres princípios nos quais o Contrato Social hobbesiano apóia-se. Destituir um golpista desenhado pelos baluartes da Revolução Cubana como mancomunado com a nata estadunidense e assim, e somente assim, semear a liberdade plena por toda a ilha caribenha eram, por sua vez, os nobres princípios de Fidel e seus guerrilheiros de Sierra Maestra. Analisando superficialmente as bases do “como agir” desenhadas por Thomas Hobbes e as intenções de agir de Fidel Castro, percebe-se certa paridade. Contudo, a ligação entre ambos vai muito além de nobres princípios, enrijecendo-se pelos caminhos tortuosos da “soberania” transfigurada de Hobbes. Entre uma tênue linha ideológica que possa diferenciá-los e uma irrefutável muralha do tempo que os distancie, a cartilha de Hobbes foi conservada e ganhou os contornos castristas. Nunca antes Hobbes fora tão atual, bem como Fidel nunca tivera tanto em quem se espelhar.

Crente na natureza destruidora do ser humano, proclamando a “Bellum omnia omnes” – guerra de todos contra todos – como o fim em si mesmo do direito humano sobre todas as coisas, Thomas Hobbes (1.588 a 1.679) construiu sua corrente de pensamento no credo de que a plenitude só seria alcançada quando o “estado natural” abrisse caminho a uma sociedade civil centralizada na figura de um homem ou de uma assembleia. Portanto, a paz seria o produto da concessão de parte das liberdades naturais dos cidadãos a uma autoridade inquestionável. Foi nesse ponto que Fidel encontrou abrigo.