1 de outubro de 2010

Crônica de uma contagem regressiva

Em um quarto não muito grande, no qual apenas duas camas, algo como um armário e uma mesa de cabeceira compartilhada pelos dois senhores que ali passam boa parte de seu tempo, é impossível não perceber logo que há algo de diferente, de peculiar e – por que não? – impressionante. Seu Oswaldo é um dos ocupantes daquele simplório quarto, morador de uma das tantas casas de repouso que existem hoje. Até este ponto, Seu Oswaldo é apenas parte de um todo – muito especial, claro – mas que ainda assim é um coletivo. Onde estaria, então, aquele quê de “diferente”?

Basta aproximar-se e começar a conversar com aquele senhor de semblante sereno, mechas brancas parcas, ouvidos cansados cansados... Mas olhos sempre arregalados, força para se sentar, comer sozinho e sair andando por aí. Seu Oswaldo é a história em forma de pessoa. Ele foi fuzileiro naval – por obrigação, mas foi. Viajou pelo litoral brasileiro atrás de aventura, ou como ele mesmo diz, porque não tinha compromisso com ninguém; se encantou com as praias, com o calor, com a Cidade Maravilhosa. Seu Oswaldo se casou, teve duas filhas. É fã das músicas do Adoniran, que fazem seus olhos brilhar. Seu Oswaldo é cidadão paulistano; é torcedor fiel do São Paulo. Seu Oswaldo é centenário!

Ganhei de presente essa figurona, essa personagem que todo jovem jornalista gostaria de conhecer, na minha primeira experiência como voluntária. Adentrei esse universo particular numa manhã de sábado, a não muito tempo atrás, porque vi ali a chance de agir da forma como agem os afetados pela síndrome megalomaníaca do mudar o mundo através dos pequenos atos. Para falar a verdade, estava mais focada nesses atos do que em, de fato, mudar o mundo – posição que sustento até hoje.

Acredito que o todo deve ser o nosso norte, mas que a parte é o que está ao nosso alcance para, de fato, sentirmos que estamos remando em direção a ele – digo remando, pois é um processo mais lento que a corrida, mais rápido que a caminhada, mas que demanda um esforço mais intenso que a maratona. Fui atrás de conjugar a máxima de São João da Cruz, segundo a qual, no entardecer de nossas vidas, é apenas o amor, é por ele que seremos julgados.

Com as personagens que surgiram como presentes para mim, e também aquelas que me fizeram entender que todos são personagens em potencial, apenas esperando por alguém que os dê voz, que todos são sujeitos de suas histórias – sejam esses sujeitos ocultos, indeterminados, simples ou compostos – comecei a entender como, realmente, somos o produto de nossa “circunstância”; salve Ortega y Gasset!

Aderindo a pieguice de uma “Filtro Solar”, viva com seus avós o suficiente para que eles pensem que você é um super-herói já que você consegue abaixar com facilidade, anda sem se cansar, tem os joelhos como amigos e sabe qual botão apertar dentre aquela infinidade que eles já não enxergam mais. Converse com seus avós o suficiente para ouvir a mesma história repetida várias vezes e, então, aprenda a achar graça mais uma vez. Faça pelos seus avós aquilo que você ainda não pôde fazer pelos seus pais. E como diz a tal música, dedique-se a conhecê-los, pois é impossível prever quando eles terão ido embora de vez.

Doeu ver que os anos podem levar sua agilidade, que ouvir as pessoas como antes pode se tornar uma exceção, que enxergar bem pode já não ser mais o seu forte, que a memória lhe será, aos poucos, tomada pela vida. Entretanto, foi como se uma nova brisa soprasse sobre mim fazendo com que uma crônica, até então desconhecida, abrisse seus parágrafos para que eu os adentrasse e, a partir de então, pudesse melhor enxergá-los, entendê-los e admirá-los. Acalanto para a alma, para as dores que não passam, para as angústias quanto às certezas do futuro. Acalanto para a vida que fez irromper um apreço maior ainda por ela.

Descubra como essa crônica pode ser primorosa e como seu ritmo pode ser um convite à valsa da vida. Entenda que enquanto você conta um dia a mais, para eles o que há é um dia a menos. Encontre por aí outros “Seu Oswaldo” para ficar na sua memória, assim como aquele velhinho camarada ficou na minha, e você entenderá o que é acreditar na vida. Que não seja, então, pelo bem que você fará a eles, mas o faça pelo seu próprio bem, que seja... Apenas entenda. Apenas respeite. Você já estará ajudando. Acredite.

"O novo e o velho", nas palavras do próprio Seu Oswaldo

1º de outubro: Dia Mundial do Idoso

Texto dedicado a Denzil Camargo (falecido em 1979), Leontino Arthur (falecido em 2012), Dalva Ventorim e Pilar Camargo

14 comentários:

  1. É isso aí Bia. As pessoas idosas sempre tem histórias interessantes a contar e nós temos muito que aprender com elas. Precisamos resgatar a importância dos idosos em nossa sociedade. Precisamos ajudá-las a assimilar as novas tecnologias e aprender com elas a não querer tudo de uma hora para outra. Estou a cada dia mais sensibilizado com a causa dos idosos. É que o tempo está passando para mim também (risos...). Parabéns.

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  2. Bia, você me surpreende a cada dia. Tirei lições muito boas deste texto como, por exemplo, ouvir a mesma história várias vezes e dar risada, ou simplismente fazer de conta que ainda não tinha ouvido.
    Parabéns
    beijos
    Tia Inês

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  3. Bela cronica...

    vc mesmo que a fez?

    parabens

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  4. Ítalo, eu mesma que escrevi.
    Obrigada, bjs.

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  5. Ô lá! Comfil representando na Blogosfera, hahahaha.
    Minha nossa senhora emm companheira da PUC-SP! Donde arrumaste tamanha habilidade redativa? Você escreve muuuito muitíssimo bem, parabéns mesmo.
    E o conteúdo então?
    É como eu sempre digo, a rua é uma estrada. E aqueles que não tem mais forças para correr por si mesmos são simplesmente retirados do caminho para não atrapalharem a corrida alheia. O mundo tem um culto absurdamente explícito pelo novo, e assim, deixam seu passado, sua história, sua própria velhice para trás. Quantas pessoas eu encontro por aí que nem sequer falam com os vovôs e vovós de sua vida, nem os que lhes são entes, nem os que lhes tem como queridos, netinhos ou não. Mal sabem estes que um dia chegará a sua vez, coitados, e quando ela chegar - se continuarem a dar como exemplo esse sórdido caráter - receberão um tratamento evolutivamente pior. Os seres humanos são como livros, quanto mais andam pela vida, maior seu número de páginas. E como você mesma diz, temos de folheá-los para que possamos corrigir, a partir dos erros deles, os nossos possíveis.
    Enfim, se todas as pessoas tivessem um invejável caráter como o seu o mundo seria de fato um lugar melhor, se todos tivessem um "Seu Oswaldo" no coração, sim, seria um lugar muuito melhor. Você pode não ter mudado o mundo em seu âmbito mais amplo, entretanto te garanto, você mudou um mundo que esta em seu estágio final - mas ainda mantenedor de tamanha beleza - um planeta esbelto que um dia foi forte e viril, mas hoje apenas pode contar que foi, você mudou a vida de um senhor e isso é sim um grande feito.
    Parabéns!!
    Quem sabe a gente não se cruza pela PUC um dia desses, hahaha.
    Até mais filha da PUC, portanto, irmã. Estou te seguindo também. Maravilhoso seu Blog.
    Tomaz Civatti.

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  6. Ahh, esqueci de dizer uma coisa, apesar de eu ter escrito um comentário bíblico... Vamos fazer parceria? Eu adiciono seu blog nos meus parceiros e vc adiciona o meu nos seus... vamos?

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  7. Puquiano, que lindo o seu comentário. Many many many tks, irmão de COMFIL! Rsrs.

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  8. Olha...
    Que texto poético, que narrativa gostosa, que crônica profunda... hhaah tudo quanto é estilo em um só lugar...
    Muito bom!!
    parabéns!! pelo texto e pelo aniversário!!

    Bjos

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  9. Bia,

    Que lindo, que profundo como pode tanta sensibilidade e sabedoria de uma menina (linda), mas menina, só 18 anos e recem concluidos.
    Preciso confessar que pela primeira vez pude parar e ler com calma o que você escreve, claro que depois do orgulho por ter uma sobrinha com um talento enorme, veio a emoção e depois da emoção a reflexão. Sabe aquele incomodo misturado com uma pergunta.
    - "Meu Deus como os dias passam rápido, o que estou fazendo, vivendo intensamente tudo o que tenho direito ou apenas deixando a vida me levar?".
    E veio uma vontade enorme de me permitir ter tempo para ler todos os e-mails de amigos queridos, de ligar mais para as pessoas, de não sentir culpa por jogar conversa fora de vez em quando...
    Enfim quero te dizer ler o seu texto hoje foi um presente para mim, sabe Bia Deus te deu um talento e um dom enorme de tocar o coração das pessoas, algo que vai além do escrever bem ou ter técnica, ou por em prática aquilo que esta aprendendo na faculdade , Deus te deu sensibilidade de tocar o coração das pessoas e levá-las a refletir e repensar atitudes e posturas.
    Parabéns pelos seus 18 anos, como é lindo te ver desabrochar como mulher e principalmente como pessoa, e eu tenho o maior orgulho de ser sua tia,não tenho filha você sabe, só os meus dois meninos(nem mais tanto menino, já jovens). porém se eu tivesse uma filha gostaria muito que ela fosse igualzinha a você,

    Te amo muito ( eu e minha casa)

    Tia Ju.

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  10. Se em algum momento eu pensei em desistir por angústia ou medo, são palavras assim que me mostram que, apesar de todos os pesares, devo ir em frente. Obrigada, Tia Jú, Tia Inês e Tio Anônimo!

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  11. Minha filha sempre fico orgulhoso quando leio suas crônicas, mas dessa fez foi alem: Também fiquei emocionado. Parabéns Bia.
    Seu Pai. (ainda não tão velho)

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  12. Aninha! Parabens pelo aniversario e pelo belissimo texto.Voce realmente domina a expressão escrita.Te admiro e respeito cada vez mais,e deso que sua carreira jornalistica ofusque tudo que existiu antes de voce.Comparando com o terreno musical eu diria que voce é uma "Jonh Lennon" da escrita. Só 18 anos.. minha nossa menina! voce é um fenomeno neste mundo de tecno-analfabetos.

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  13. Ah Sig, assim não vale! Assim você pega no meu ponto fraco... Um "muito obrigada" do tamanho do mundo para você, mestre!

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  14. Bia!!!!
    PARABÉNS!!! Você escreve muito bem!! Preciso aprender com você!!!
    Emocionante!! Você conseguiu tirar tanta coisa da nossa visita!! Posso colocar no mural do Angra??
    E é isso ai!!! No céu só restará a caridade, pois não vamos mais precisar da fé e da esperança!!! E nada como viver a caridade com essas pessoas mais que especiais!!
    Desculpa a demora pra ler!!
    E mais uma vez... parabéns!!
    um grande beijo
    Pérola

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