Há exatamente um ano, ele nascia acanhado, pequenininho, sem fazer todo aquele estardalhaço como a maioria dos recém-nascidos, entretanto, ele surgia confiante, esperançoso, faminto de conhecimento e sedento de ideias. Sua vinda não fora algo muito bem planejado, digamos que de um rápido esboço ele passou a ser algo real, mais ou menos como aquela pessoa que não pede licença, vai logo entrando, mas mesmo assim consegue ser tão educada e adorável a ponto de sua presença se transformar em um presente, um alívio - no meu caso, uma paixão. Quando ele nasceu, talvez não tenha sido muito acreditado por sua progenitora, mas ah, como ela estava enganada... Não que ele tenha se transformado em algo perfeito, mas sua vocação para ser grande já se faz visível. Quando ela lhe tomou aos braços pela primeira vez, talvez tremesse como qualquer marinheiro de primeira viagem, mas junto com o suor frio que escorria pelo seu rosto, estava a lágrima de felicidade, de realização, de desafio.
Sim, eu não o planejei, aconteceu; também confesso, não depositei nele aquela confiança dos que se dizem fortes e sábios; tremi, suei frio e até senti algo escorrendo dos meus olhos. Ousei planejar seu futuro - criar cronogramas, regras rígidas e imutáveis, sentenciar exatamente como seriam seus primeiros passos, suas primeiras palavras, seus primeiros sorrisos - mas quem disse que nossas crias são tão manipuláveis? Falhei. Mas, olhe que barato, quando pensei que esta aventura era demais para o meu espírito aventureiro, fui surpreendida por uma força que me mostrou o quão saboroso é o gosto do desconhecido, do novo. De onde veio a tal força? Da criatura, para espanto do criador.

A máxima dos clássicos natalinos fez-se verdade outra vez: “então é Natal”. Na verdade, este texto está sendo escrito um dia após tal festividade, ou seja, já em clima de Réveillon – como se fosse fácil e, cá entre nós, possível separar uma data da outra, por mais que estas sejam separadas por seis dias. O Natal é aquela preparação da alma para o “bug da virada do ano”- momento em que nosso processador faz uma limpa no sistema, mas claro, com aquele backup antecedente e revigora-se para mais uma leva de informações a serem processadas e devidamente armazenadas. Com isso, surgem as incertezas, o receio, o medo. Justamente por isso eu considero a data do Natal como uma preparação para esse turbilhão de aparições, já que o seu brilho, o seu poder de tocar as pessoas e emocioná-las reconforta, enche de esperança, fortifica e revigora; tornamo-nos mais humanos – prontos para qualquer provação da vida.



Pertencer a uma família, fazer parte de um grupo, compor as estatísticas de um determinado local são fatos que tecem nossa rede social dia-a-dia, mas não são nada igualmente comparáveis à nossa posição de cidadãos globais. Pensar socialmente é pensar em relações interpessoais; pensar globalmente é relacionar sua vida com o mundo. Assim, ambos passam a desenhar uma cadeia indelével, na qual ação e reação de uma das partes se confundem com as da outra.

